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Eunice e a vizinha

Era noite e as nuvens estavam densas. Mas não ia chover. A meteorologia dizia isto e o vento não era o da direção que indica chuva.

Olhei pela janela. Percebi um canhão de luz, longe, mas muito visível. Deixava a nuvem mais grossa, mais pesada. Ainda assim, não me iludi - não ia chover.

Enquanto pensava na chuva, reparei que o canhão, em vez de dançar, como o usual nos eventos publicitários, piscava. E piscava com ritmo, um ritmo que não era o da música, mas o das palavras. Lembrei da noite em que meu pai me ensinou o código morse, partindo do SOS. Muito rapidamente, dei-me conta, era um sinal de SOS.

Será que era Eunice? O que dizia aquele facho? A frase era mais ou menos curta, e se repetia. "Vizinha namorado abraçados. Vi da janela. Era amor era sexo? Pena você ñ vai ver, ouvir apenas." Entendi completamente apenas na terceira ou quarta vez. Saí correndo, achei que seria mais rápido à pé do que de carro. Segui em direção à claridade.

Não preciso dizer que, chegando lá, ou onde imaginava que era o lá, lá não havia ninguém. Voltei melancólico para casa, vagarosamente, bem devagar. Quanto cheguei ao portão de entrada, caíam os primeiros pingos.

Escrito por Amigo da Eunice às 17h31
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Eunice aprendeu dinamarquês

Chego ao trabalho e, sobre a mesa, encontro um bilhete. Nunca havia visto aquela letra. Tenho uma memória incrível para caligrafias e definitivamente, aquela era nova.

Meus olhos foram, diretamente, para o fim do papel. Estava assinado. Era de Eunice. E dizia:

"Ontem, abri um livro sobre literatura nórdica. Era bilíngüe. Aprendi uma palavra em dinamarquês, romanforfatter, que significa "romancista". Tentei entender como se formam as palavras em dinamarquês e, se não estou enganada, poderia também traduzir romanforfatter por fazedor de romances.

Hoje, era isso que eu queria contar. Tá bom, né? Um dia ainda aprendo dinamarquês de verdade, mas, para isto, preciso ter mais contato com a língua.

Da fazedora de bilhetes,

Eunice."



Escrito por Amigo da Eunice às 12h10
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Quem é Eunice

Não sei nada da Eunice. Mas posso imaginar algumas coisas.

Imagino, por exemplo, que ela sabe tudo sobre mim. Isto porque ela sempre consegue me encontrar. Uma vez ela me telefona, eu no trânsito, e ela começa a falar, a falar, a falar. Não consigo desligar o celular. Outras vezes, chego em casa e, sob, a porta, encontro uma carta.

Uma carta incrível, narrando as mais incríveis peripécias.

Certa vez, perguntei a Eunice porque ela me escolhera para ouvi-la. E ela contou que gosta de observar, e que numa manhã de sol, enquanto eu tomava café numa padaria, decidiu que precisava ter um confidente. Um confidente que não tivesse para quem passar adiante seus segredos mais bobos, e também os mais incríveis.

Mas o que a havia levado a tal conclusão, a tal decisão? Ela respondeu apenas: o pullover. E desligou o comunicador instantâneo.


Escrito por Amigo da Eunice às 22h49
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