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Sonhei com Eunice

Decidi não sair de casa. Fechei a porta e as cortinas. Desliguei o telefone, o celular, tirei a pilha do relógio digital que, não sei por quê, toca de hora em hora. Precisava descansar e sabia que, depois de uma noite sem dormir, não podia correr o risco de voltar a me "encontrar" com Eunice.

Fiquei lendo por algumas horas um estudo de economia, em que tinha a certeza de que não me depararia com nenhum nome, nenhuma personagem real. Tudo ali eram fórmulas matemáticas, umas mais abstratas, outras mais utilitárias. Dormi com o livro na barriga - que, aliás, não é pequena.

E sonhei com Eunice. Não vi seu rosto, apenas senti ela se aproximar e dizer que, na noite anterior, havia saído com alegres imigrantes. Falando cada vez mais baixo, mas sempre perto do ouvido, contou de um ex-namorado, que fez questão de abandonar em grande estilo.

Alguns meses depois, ele se queixou de que, naquela última vez, ela gozou sozinha, sem qualquer participação sua. "Me senti usado", ele falou. Eunice, então, rebateu: "Mas era para você se sentir inútil."



Escrito por Amigo da Eunice às 19h59
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Eunice não foi à praia

Aproveitei o feriado prolongado e fui à praia. Fui sozinho, primeiro porque estou sozinho. Segundo porque esperava encontrar Eunice, disfarçada entre as banhistas.

Claro que foi uma idéia estúpida. Sabia de início, e não esperava mudar de idéia. Mas achava que, talvez, eu a reconhecesse entre tantos rostos, percebesse um olhar especialmente interessado em meus movimentos, nos mergulhos que eu daria no mar, nos jacarés que pegaria.

Evidentemente, tudo que vi foram olhares desconfiados, estranhando minha atenção especial, uma curiosidade que não era a da paquera e não era a simples observação a que todos estamos acostumados na areia do mar.

Fui almoçar por volta das quatro da tarde, não sem antes passar pela banca de jornal. Imaginei: aqui ela não me acha, enquanto preparava um bifê rápido e umas babatas bem cozidas, mergulhadas num creme que havia levado de casa. Comi bem, tomei uma cerveja, abri o jornal um tanto aleatoriamente. Depois de três ou quatro textos mais ou menos desinteressantes, cheguei à crônica de um famoso escritor.

Normalmente eu não o lia, mas abri uma exceção porque o título me assustou: "Eunice não é nome de personagem". Como voracidade, fui ao texto, em que ele dizia que todas as suas personagens tinham nomes de amigos ou inimigos, mas sempre conhecidos. Do nome verdadeiro, surgia nos seus textos uma pessoa totalmente diferente, e que criar uma pessoa cujo nome remetesse imediatamente ao desconhecido o obrigaria a narrar histórias verdadeiras, matando a ficção. Como nunca conhecera uma Eunice, não podia usar este nome na ficção.

Obviamente, aquilo era um recado. Ou apenas uma coincidência. O fato é que não consegui dormir.



Escrito por Amigo da Eunice às 18h27
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