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Obesidade

O meu medo, ao engolir raiva, é engordar, feito boi no pasto, boi na moita de capim-gordura, boi mocho inchado no sal. Boi que come manga, muito come e se lambuza. Eu queria ser um boi, às vezes, para dormir à tarde em vez de trabalhar. Dormir, dormir, e deixar a preguiça obrar a meu favor, o que no mundo de hoje, nem.

 

Nem a pau, Juvenal. O problema é que a gente idealiza, isso é que é… A vida de besta não é tão assim, já leu Fazenda Modelo do Chico? Aquilo é que é resposta, senta aqui que arranco bosta, como a gente dizia. Fodeu com o tal do George Orwell, que todo mundo cita que nem porco nem porquê, mas que só fala merda. É um idiô, como dizem os franceses, e quem não lê os franceses não entende o mundo, falô?

 

Os gringos da inglaterra e dos estados unidos, me perdoem aí meus irmãos brothers escritores e jornalistas de quinta categoria (o pior jornal do mundo é o The New York Times, registre-se), só sabem escrever sobre os que não mandam nem são mandados, a triste classe média, que gosta de bife, mas almoça em vegetariano, que adora mcdonald’s, mas sonha em jantar no chef rouge, o chef vermelho e francófilo, que sabe dividir as porções irmanamente entre os esfomeados que pagam, pagam, pagam as faturas de cartão de crédito e assaltam a geladeira de madrugada. Um ideólogo desses, que eu conheço, ah, conheço muito bem, gostava de comer pão com banana na às três da matina. Às quatro, como um relógio, abria o pote de nutela.

 

Eu tenho medo, eu tenho medo, todo mundo tem um medo, e o de engordar é o pior possível. Engordar é comer demais, é consumir demais, é, de mais a mais, deixar-se levar pela aparência do biscoito. Não que eu não goste de bolacha, gosto, mas eu quero capim, capim, capim. Sinto-me burro, asno, mula, teimoso que nem, mas me sinto, e sinto que não adianta resistir, engordar é bom, mas é perigoso, e nada mais perigoso do que ter medo, é um círculo vicioso, como o da propaganda do farináceo.

 

E eu engulo raiva. Eu sou humilhado. Os políticos me ofendem, a esquerda me ofende, a direita finge que eu não existo. E isso dá fome.

 

Dá muita fome querer derrubar um governo de centro-direita, dá muito mais fome querer jogar milhares de sem-terra sobre o presidente do Congresso que finge que foi um dia talvez comunista para no fim gostar mesmo é de freqüentar, como se estivesse numa música do Eduardo Dusek (oba, desta vez não confundi com o Ritchie, da menina veneno).

 

A política, da qual estou cada vez mais alienado, tornou-se um território do outro, um território aristocrático e de exclusão. A democracia hoje não é nem palavra de ordem. As pessoas hoje têm vergonha de falar e de escrever a palavra democracia, um conceito filosófico ultrapassado e enganador, que já não ilude ninguém.

 

E isso, amigo, dá muita fome.



Escrito por Amigo da Eunice às 11h24
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