A morte da elefanta
A morte de elefante é livro guardado na estante. Por muito tempo, vai-se remoer essa história, e nos mentirão, e acreditaremos em tudo que for mentira, e duvidaremos do que for verdade. Porque morte de elefante não se esquece. É de crueldade comparável só a massacres dos quais governantes tomam parte, como aquele de três casas decimais.
Quando um paquiderme bate as botas, embora não as use, sempre há a suspeita da ingerência humana no desastre; de homens que sempre invejaram o fato do elefante ter o cérebro maior do que o nosso e de, como as mulheres que sobem nas cadeiras por conta de nojentas e minúsculas baratas, correrem eles de ratos que poderiam massacrar simplesmente. Gente fina, num certo sentido.
Mas isso, dessa vez, é intriga, fofoca. Coisa de gentalha querendo pôr confusão no novo governo, que já nem é tão novo assim. Desta vez, sabe-se muito bem quem é o coronel Mostarda com o candelabro na cozinha cometendo seus crimes de sempre.
Especialmente numa sociedade multifabular, como é o zoológico, instaura-se o terror étnico quando morre um elefante. Nem por isso deixa-se de saber. Se fosse fazenda, modelo, dariam nome aos bois.
Quem matou a elefanta de nome Baira, mas que, pela graça com que atravessava seu escasso espaço, era chamada pelos tratadores de Beija-Flor? Sim, Beija-Flor; embora tal apelido comporte uma certa ironia, os bons tratadores, ou seja, aqueles não envolvidos na trama nem em grupos de extermínio organizados por maus policiais florestais, seguiam a tradição humanista de Leonardo da Vinci, que escreveu sobre esses bichos de quatro toneladas e duas enormes presas de marfim: “O elefante possui, por natureza, algo que é raro encontrar-se no homem, isto é, probidade, prudência, equidade e observância da religião, pois quando a Lua se renova, os elefantes vão aos rios e ali se lavam solenemente, purificando-se, e desse modo, tendo reverenciado o planeta, voltam à selva.” Ah, o elefante. Ou melhor, ah, a elefanta.
Numa hora dessas, vale mais o balbucio das araras, que não se cansam de repetir, sem serem ouvidas, que viram o crime e o criminoso espalhando o veneno num dia límpido de alamedas iluminadas pelo Sol, não pela Lua. Porque a polícia, ignorante que só, mal equipada, tem por intérpretes animalumanos apenas os papagaios. Que, como se sabe, preferem os holofotes e os paus-de-arara (usurpadores!) à verdade. E que inventaram essa de que houve um descuido de um mau tratador.
Como investigou o sr. Tamanduá, que tem um bom nariz para as boas pistas, o caso do mão-branca, nome do veneno que derribou todos os treze e tantos bichos, tratou-se menos de um descuido que de ação deliberada. E todos sabem que não houve outro assassino que não o chimpanzé. O chimpanzé, sabe como é, matou o elefante. Puro ciúme ou algo mais? Evidências: todas, a começar pelo famoso crime da rua Morgue, como já contou Edgar Allan Poe, em que o primata era outro, mas o gênero traiçoeiro o mesmo.
E o chimpanzé, de mão branca, veneno forte, não apenas matou o bicho como a toda a família. Senão, contemos: desde a véspera dos 450 anos da cidade, morreram Tony, Nancy e Felipe, chimpanzés de 15 a 25; Baira, a elefante gentil, que, na África, quando um par seu caía num buraco, ajudava a enchê-lo com terra e pedaços de madeira, para que que o companheiro pudesse sair da armadilha; três dromedários-laranjas e, finalmente, três antas, entre as quais a Melancia, prima da Jaboticaba e da Gabiroba, se não falha o registro de animais, deixando de lado os porcos-espinhos, que mereciam. Isso antes que Fafá, outra primata, fosse levada para a enfermaria e que viessem a falecer os senhores Bisão, Orangotango e mais um Bisão.
Tudo aponta para o Chimpanzé da propaganda de um provedor da Internet. Mas, como não há pena de morte neste infame país, resolveram pô-lo atrás das grades. O zoológico é mesmo uma Universidade do Crime.
Escrito por Amigo da Eunice às 20h01
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