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Contando para Eunice

Vou contar uma coisa para a Eunice. Ninguém nunca puxou minhas orelhas. Mas me sinto violentado na infância, por ter tido o meu lado curioso e artístico de certa forma reprimido. Eu escrevia umas coisas meio doidas. Mas ninguém lia. Ou se lia era para corrigir o português. Achei que aquilo não valia nada. E passei a escrever na "língua da facudade". Só quando eu estava escrevendo o doutorado é que senti o quanto é chato escrever assim. E percebi que eu tinha sido condicionado.

Por outro lado tem uma coisa legal na língua da faculdade, em termos de linguagem, que é a ideia de precisão.

Mas às vezes é legal ter dominío da confusão. Me ressinto de nunca ter estudado música. Hoje aos 35 talvez seja tarde demais. Tem coisas que meu ouvido não vai mais ouvir. Que minha voz não vai mais poder cantar. Nem ver.

Uma vez a minha mãe disse: nossa agora tão morrendo umas pessoas que antes não morriam... Se você pensar bem, você construiu uma vida supercoerente. Tanta coerência não podia ter vindo de mim, sociologicamente é explicado pela relação entre a estrutura social e o espaço programado para o indivíduo transitar dentro dela. Ontologicamente, é mais complicado.

Chega de filosofia por hoje. Vou jantar que a fome tá brava.



Escrito por Amigo da Eunice às 15h13
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A morte da elefanta

A morte de elefante é livro guardado na estante. Por muito tempo, vai-se remoer essa história, e nos mentirão, e acreditaremos em tudo que for mentira, e duvidaremos do que for verdade. Porque morte de elefante não se esquece. É de crueldade comparável só a massacres dos quais governantes tomam parte, como aquele de três casas decimais.


Quando um paquiderme bate as botas, embora não as use, sempre há a suspeita da ingerência humana no desastre; de homens que sempre invejaram o fato do elefante ter o cérebro maior do que o nosso e de, como as mulheres que sobem nas cadeiras por conta de nojentas e minúsculas baratas, correrem eles de ratos que poderiam massacrar simplesmente. Gente fina, num certo sentido.


Mas isso, dessa vez, é intriga, fofoca. Coisa de gentalha querendo pôr confusão no novo governo, que já nem é tão novo assim. Desta vez, sabe-se muito bem quem é o coronel Mostarda com o candelabro na cozinha cometendo seus crimes de sempre.


Especialmente numa sociedade multifabular, como é o zoológico, instaura-se o terror étnico quando morre um elefante. Nem por isso deixa-se de saber. Se fosse fazenda, modelo, dariam nome aos bois.


Quem matou a elefanta de nome Baira, mas que, pela graça com que atravessava seu escasso espaço, era chamada pelos tratadores de Beija-Flor? Sim, Beija-Flor; embora tal apelido comporte uma certa ironia, os bons tratadores, ou seja, aqueles não envolvidos na trama nem em grupos de extermínio organizados por maus policiais florestais, seguiam a tradição humanista de Leonardo da Vinci, que escreveu sobre esses bichos de quatro toneladas e duas enormes presas de marfim: “O elefante possui, por natureza, algo que é raro encontrar-se no homem, isto é, probidade, prudência, equidade e observância da religião, pois quando a Lua se renova, os elefantes vão aos rios e ali se lavam solenemente, purificando-se, e desse modo, tendo reverenciado o planeta, voltam à selva.”

Ah, o elefante. Ou melhor, ah, a elefanta.


Numa hora dessas, vale mais o balbucio das araras, que não se cansam de repetir, sem serem ouvidas, que viram o crime e o criminoso espalhando o veneno num dia límpido de alamedas iluminadas pelo Sol, não pela Lua. Porque a polícia, ignorante que só, mal equipada, tem por intérpretes animalumanos apenas os papagaios. Que, como se sabe, preferem os holofotes e os paus-de-arara (usurpadores!) à verdade. E que inventaram essa de que houve um descuido de um mau tratador.


Como investigou o sr. Tamanduá, que tem um bom nariz para as boas pistas, o caso do mão-branca, nome do veneno que derribou todos os treze e tantos bichos, tratou-se menos de um descuido que de ação deliberada. E todos sabem que não houve outro assassino que não o chimpanzé. O chimpanzé, sabe como é, matou o elefante. Puro ciúme ou algo mais? Evidências: todas, a começar pelo famoso crime da rua Morgue, como já contou Edgar Allan Poe, em que o primata era outro, mas o gênero traiçoeiro o mesmo.


E o chimpanzé, de mão branca, veneno forte, não apenas matou o bicho como a toda a família. Senão, contemos: desde a véspera dos 450 anos da cidade, morreram Tony, Nancy e Felipe, chimpanzés de 15 a 25; Baira, a elefante gentil, que, na África, quando um par seu caía num buraco, ajudava a enchê-lo com terra e pedaços de madeira, para que que o companheiro pudesse sair da armadilha; três dromedários-laranjas e, finalmente, três antas, entre as quais a Melancia, prima da Jaboticaba e da Gabiroba, se não falha o registro de animais, deixando de lado os porcos-espinhos, que mereciam. Isso antes que Fafá, outra primata, fosse levada para a enfermaria e que viessem a falecer os senhores Bisão, Orangotango e mais um Bisão.


Tudo aponta para o Chimpanzé da propaganda de um provedor da Internet. Mas, como não há pena de morte neste infame país, resolveram pô-lo atrás das grades. O zoológico é mesmo uma Universidade do Crime.



Escrito por Amigo da Eunice às 20h01
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Sem recibo

Eunice fez me saber a história de uma amiga. A mãe da menina, quando a garota tinha dez anos, pegou-a pelas orelhas até que ela levantasse do chão. Motivo: a menina não tinha pego o recibo do médico.



Escrito por Amigo da Eunice às 19h27
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