Eunice no restaurante japonês
Eunice começava, realmente, a fazer parte da minha vida cotidiana. Por mais que eu quisesse deixar de pensar nela e nas formas que ela podia ter, a fantasiar e a idealizá-la, ela fazia questão de interromper meu trabalho, meus raciocínios complexos e até mesmo a atenção que sempre dispensei aos jogos de futebol.
Seria loira ou morena? Negra ou branca? Alta, baixa, gorda, magra, voz seca, suave ou doce? Caraminholando sobre a onipresença de Eunice em minha vida, caminhei de modo inconsequente por algumas ruas da Vila Madalena. Não era eu bairro preferido da cidade, especialmente para caminhadas, por conta de suas ladeiras que levam a ladeiras que, por sua vez, acabam em subidas. Aliás, andar pela Vila Madalena dá uma estranha sensação de que em São Paulo não há descidas, apenas subidas.
Subindo uma dessas ruas com nome engraçado – Abegoária, Girassol ou Fantasia, agora não me recordo -, de de cara com um simpático restaurante japonês, filial de um outro que eu frequentava no horário de almoço no trabalho. Para mim, era uma comida honesta, embora um colega realmente japonês tenha olhado com um enorme desprezo para mim no dia em que o convidei para aproveitarmos nossos incríveis vinte minutos de almoço por lá. Sério, ele preferiu o McDonald's.
O importante é que deu vontade de entrar, e o ambiente era bacana. Tinha uns barcos de madeira fazendo as vezes de luminária, umas meses de plástico e as garçonetes vestiam roupas de gueixa. Aquilo devia ser humilhante, concordei comigo mesmo – já havia pensado nisso outra vez, em outra casa que servia peixe cru -, mas, raios, havia uma certo prazer em vê-las constrangidas. Lembrei também da vez em que comparei as palavras: as poetisas conseguiram passar as ser tratadas como poetas, simplesmente, mas ninguém fez nada pelas garçonetes, que estão muito mais presentes no nosso cotidiano. Escrever ainda garante uma espécie de poder político, enquanto quem servia está lá para isso mesmo, servir, sem poder ao menos pedir uma palavra que revele consideração e estima.
E se Eunice fosse poeta, hein? Que tipo de versos faria?
Pronto, ela voltou, apesar de todo o meu esforço. Calculei que era hora de chamar uma das garçonetes e pedir o rodízio, que estava em promoção, dezenove e noventa. Achei também que um refrigerante acompanharia bem aquele gênero especial de fast food que é o sushi. Chamei a tal da garçonete vestida de gueixa, que anotou o meu pedido num desses aparelhos digitais. Ela enviou os códigos que digitou para a cozinha e, sem que eu falasse nada, puxou uma cadeira e comeu a falar:
- Eunice tem um baratinho toda vez que come sushi. É uma coisa assim, sem explicação. Ela acha que o arroz fermenta um pouco no estômago dela, liberando um tantinho de álcool. 'É como tomar uma tacinha de vinho', ela diz.
A garçonete, que tinha um crachá com um nome que não guardei, falou, levantou-se, soltou o cabelo, tirou o quimono. Não, ela não estava nua. Estava com uma camiseta branca e calça jeans. Deu uns passos em direção à porta e, antes de abri-la, com voz teatral, anunciou:
Meu nome não é Eunice.
Isso eu já sabia.
Escrito por Amigo da Eunice às 01h48
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