Prefácio
Eu conheço uma Eunice, mas não é essa do livro. Roubei o nome dela, porque não podia roubar suas garrafas de vodka. Roubei o nome por alguns bons motivos, que, se eu não explicasse, talvez até alimentasse o desejo do leitor de descobrir algum significado literário na escolha. Mas eu prefiro contar: Eunice, eu nisso, eu 'nice', ou seja, eu numa boa. Apesar de que esta história não é tão tranqulia assim. A doravante nomeada Eunice (Dora seria uma opção, aliás, caso não tivesse preferido o da amiga) é, na verdade, alguém que não existe, mas deu para me perseguir. Vou dar um exemplo simples, creio que assim as coisas ficarão ainda mais claras. A primeira vez que li seu nome ele nem parecia estar tão ligado a tudo o que ia viver. Fui visitar um amigo no trabalho. Esperava ele fechar o computador para que a gente almoçasse. Mesmo tentando evitar, li um e-mail, por cima do ombro dele:
"Houve um suicídio na galeria do rock, gostria que publicassem algo, porque eu queria saber quem é a pessoa. De repente até conheço, não tive coragem de olhar o corpo."
Remetente? Eunice. Mas ainda não sabia nada sobre Eunice. Tive, no entanto, a sensação de que ela sabia algo sobre mim. Uma sensação que só pioraria quando ela revelou-se uma figura recorrente em meu cotidiano, um nome que, gostasse ou não, passei a ouvir e ler constantente. Dois dias após esse primeiro encontro, recebi um telefonema, eu no trânsito, no celular cujo número só um pequeno círculo de amigos tinha, e ela começa a falar, a falar, a falar. Não consigo desligar o celular, e hoje já nem me lembro o que ela dizia. Só tenho certeza de que perguntei por que ela me escolhera para ouvi-la. E ela contou que gosta de observar, e que numa manhã de sol, enquanto eu tomava café numa padaria, decidiu que precisava ter um confidente. Um confidente que não tivesse para quem passar adiante seus segredos mais bobos, e também os mais incríveis.
Escrito por Amigo da Eunice às 02h38
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